Atividade

76774 - Quem tem medo da jaguatirica? Elementos para a escuta, descrição e análise de músicas indígenas

Período:
Segunda 19:00 às 21:30
 
Descrição: Conteúdo programático:

Oficina 1 – Paisagem sonora: quando a Inhaúma canta, a pintada está por perto.
Exercícios de escuta de paisagens sonoras (soundscapes) e a questão dos sons no ambiente; a memória sonora e escritura musical; conhecer e problematizar os artefatos descritivos em música, tendo os ambientes sonoros como campo virtual. Da experiência de escuta em campo às primeiras impressões e noções sonoras, desvendar planos aurais, parâmetros sonoros, modalidades de escuta e o conceito de objeto sonoro. As relações sonoras e as semânticas do som socialmente constituídas. O que é música, afinal?
Oficina 2 – Intensidade e timbre: o miado da yauaretê miri.
A partir de experiências de escuta e produção sonora com instrumentos musicais indígenas e outros instrumentos acessíveis, conceber e compreender os parâmetros do som intensidade e timbre, marcadores da presença sonora, trabalhando sua descrição e representação gráfica com notações criadas em aula e acessando a notação ocidental. Breve introdução à classificação dos instrumentos e a organologia indígena tendo em vista o próprio conceito de timbre. Os conceitos sonoros trabalhados estarão conectados àqueles da musicológica Kamayurá.
Oficina 3 – Tempo, duração e ritmo: o maracajá caminha em silêncio pela mata.
Concepções de tempo, tempo musical, a música como tempo esculpido. Tempo linear (duração, ritmo), tempo simultâneo (encaixes rítmicos, polifonia rítmica, sincronia). Noção de pulso e compasso; subdivisões de tempo e proporcionalidade; acentos, fermatas e outros sinais diacríticos; tempo, contratempo e síncopa; quiálteras (tercina etc.); ritmo e polirritmia. Andamento, aceleração, acompanhamento. Representações gráficas do tempo sequencial e das simultaneidades; a visualidade das durações nas notações.
Oficina 4 – Frequência, nota musical e melodia: quantas pintas tem a pintada.
A partir de exercícios de escuta e práticas com instrumentos indígenas e outros, trabalhar o conceito de frequência (altura), notas musicais e intervalos; tons, semitons e microtons; afinação vocal e instrumental; alguns princípios acústicos básicos e os harmônicos. Criar e desenvolver grafias melódicas, fazendo ponte com as grafias da tradição ocidental e outras.

Oficina 5 - Tonal, modal e outros sistemas de altura: o território de caça do bichano.
Âmbitos tonais, sistemas de altura; coleção de notas, escalas e modos; a ideia de polarização e centro tonal; música tonal, atonal, microtonal; homofonia e polifonia. Experiências vocais e instrumentais orientadas no sentido proporcionar a vivência de diferentes sistemas de alturas, o mesmo se dando com audição de gravações e leitura de partituras, sendo algumas especialmente criadas para o uso de um quinteto de clarinetes xinguanos (ta’akwara) pelos alunos inscritos, por meio do procedimento de hoquet (ou hoquettus).
Oficina 6 - Desenhando sons, criando partituras: pegadas de felino na trilha.
Elaboração de notações inventadas coletivamente e treinos de grafia por meio de escutas e de atividades de criação: a construção de aparatos de registro. Discussão sobre memória, sonho e notação; formas de representação, gravação sonora e regimes de descrição, tradução e transcrição: entre as heranças positivistas e estruturalistas e a plasticidade do mundo ameríndio. A notação ocidental, a partitura e outros métodos de registro visual. Breve histórico da notação ocidental, para a compreensão da função e forma de determinados elementos gráficos, como as claves, a notação alfabética, os sinais diacríticos, entre outros. A diferença entre notação musical prescritiva e descritiva. O espectrograma e a representação tridimensional do som: fazendo música espectral com as flautas uru’a do Xingu.
Oficina 7 – Formas e estruturas sonoras: jaguatiricas têm shazam e soundhound.
Elementos de composição e improvisação musicais: motivos, tema & variações, acontecimento sonoro, harmonia, estruturas sonoras, estrutura responsorial (pergunta e resposta, figura e fundo, solo e resposta coral) e outros planos dimensionais da música. Forma musical e sua inteligibilidade; duração de uma música, os movimentos e as partes, as suítes e a máquina ritual. O que é inter-semiótico em música. Sequência, simultaneidades e outros sentidos temporais; o paradigmático e o sintagmático nos procedimentos de criação musical; noção de elementos expressivos: som, silêncio e ruído, textura, densidade, dinâmica, agógica. Sintaxe, semântica e discurso musical.
Oficina 8 – Descrição, análise e transcrição musicais: quem tem medo da jaguatirica? (ou: nem braba, nem mansa).
Exercícios finais de descrição, análise e transcrição musicais a partir de gravações e experiências sonoras. Criação coletiva final.

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Carga Horária:

20 horas
Tipo: Obrigatória
Vagas oferecidas: 21
 
Ministrantes: Luísa Valentini
Paola Andrade Gibram
Pedro Paulo Salles


 
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