Atividade

80177 - Fragmentos do cinema cubano

Período:
Sábado 09:00 às 13:00
 
Descrição: Em Otras maneras de pensar el cine cubano, Juan Antonio García Borrero reivindica uma nova historiografia para o cinema de seu país: não teleológica ou apenas centrada na produção do ICAIC (Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos), mas que compreenda uma noção ampla do que seja o cinema cubano, que possa incluir, por exemplo, o audiovisual realizado por cubanos fora da ilha, ou filmes já não estritamente cinematográficos, como a experimentação em vídeo de jovens realizadores.

As ideias de García Borrero servem de inspiração a este curso. Ainda que centrado na produção do ICAIC, aqui o cinema cubano pós-revolução será visto de uma maneira aberta, sendo sua história concebida não necessariamente sob uma ordem cronológica ou somente em torno de seus autores canônicos, mas também a partir de certas linhas de força que a transpassam e podem ser vislumbradas tanto em filmes mais antigos como em contemporâneos. Assim, por exemplo, observaremos a permanência da comédia cubana ao longo de várias décadas, a retomada do melodrama após anos de recusa, ou a riqueza da produção documental em Cuba. Por outro lado, o curso não se furtará a abordar os grandes nomes da cinematografia cubana e seu pensamento sobre cinema, compreendendo-se o caráter fundante das formulações de autores como Gutiérrez Alea e García Espinosa, ou a importância da obra de Fernando Pérez na produção contemporânea.

* As aulas serão ministradas aos sábados de manhã, das 9 às 13hs, do dia 11 de
novembro ao dia 9 de dezembro de 2017.
** A maioria dos filmes a serem exibidos e discutidos em aula são falados em
castelhano, sem legendas em português.

Programa de Aulas:
A DÉCADA PRODIGIOSA
A chamada “década prodigiosa” do cinema cubano, os anos 1960, foi um momento de efervescência cultural e política que gerou algumas das obras mais significativas do cinema cubano. Nesta aula, serão abordados filmes emblemáticos do período: Aventuras de Juan Quinquín (1967, Julio García Espinosa), Memórias do subdesenvolvimento (1968, Tomás Gutiérrez Alea) e Lucía (1968, Humberto Solás). Também se discutirá a produção escrita dos cineastas e fundadores do ICAIC, como o famoso texto “Por un cine imperfecto”, de García Espinosa, os debates publicados na revista Cine Cubano, e as polêmicas culturais dos anos 1960 em Cuba.

A COMÉDIA
O choteo, maneira crítica e bem humorada de fazer troça, tem sido estudado como elemento intrínseco da cubanía ou da “cubanidade”. O humor teve grande espaço na cinematografia cubana de ficção. Através dele os cineastas fizeram críticas a suas condições de vida e aos descaminhos da Revolução, e por meio do humor seus filmes tornaram-se populares. Sejam filmes como Las doce sillas (1962), La muerte de un burócrata (1966) e Guantanamera (1995), do mestre Gutiérrez Alea, toda a obra de seu discípulo Juan Carlos Tabío, ou até uma comédia de costumes como Hacerse el sueco (2001), de Daniel Díaz Torres, todos comprovam o potencial da comédia em sua capacidade de reunir crítica e diversão.

OURO SOBRE O AZUL – O DOCUMENTÁRIO NO CINEMA CUBANO
Linha de força fundamental na história do cinema cubano, o documentário, presente desde os princípios da Revolução, foi visto como meio de formação para os cineastas do ICAIC, que deveriam praticá-lo antes de passar à ficção. Foi tamanha a potência da veia documental que esta excedeu os limites do gênero, tendo sido incorporada a vários filmes de ficção. Nesta aula, a riqueza e a diversidade do documentário na cinematografia cubana serão observadas na obra vanguardista dos cineastas Santiago Alvarez, Nicolás Guillén Landrián e Sara Gómez.

REENCONTROS E SEPARAÇÕES / NEGOCIAÇÕES COM O MELODRAMA
O tema das separações, desencontros e reencontros causados pelo êxodo de cubanos para o exterior após a Revolução começa a ser explorado pelo cinema cubano a partir dos anos 1980 e ganha força nos anos 1990. Lejanía (1985), de Jesús Díaz, é um dos filmes que abre esta vereda, que encontra maturidade em obras como Morango e chocolate (1993) e Reina y Rey (1994), dos veteranos Gutiérrez Alea e García Espinosa. A partir dos anos 1990 e durante os anos 2000, o cinema da América Latina obteve novo fôlego em países como Argentina, México e Brasil, encontrando algum sucesso em concessões aos paradigmas do mercado e no diálogo com a indústria televisiva. O cinema cubano não foi exceção nesta nova produção mais atenta ao grande público. Em Cuba, o melodrama foi então recuperado e incorporado de maneira crítica. Sob este vértice serão analisados Miel para Oshún (2001) e Barrio Cuba (2005), de Humberto Solás, que encontram no melodrama uma forma para o pathos dos reencontros e das separações.

O PERÍODO ESPECIAL E DEPOIS SOB O OLHAR CRÍTICO DE FERNANDO PÉREZ
Fernando Pérez se destaca desde os anos 1990 como um dos nomes mais importantes da cinematografia cubana contemporânea. Sua obra passa pelo cinema de reconstrução histórica – Clandestinos (1987) e Martí, el ojo del canario (2010), mas parece encontrar sua “marca autoral” em obras alegóricas que abandonam qualquer pendor didático em favor do estranho, do inquietante – como em La vida es silbar (1998), Madrigal (2006), e Los últimos días en la Habana (2015). O documentário Suite Habana (2003) é imprescindível como marco para a compreensão de sua obra de ficção.

Objetivos, materiais e método, público-alvo:
O curso visa promover a divulgação do cinema cubano, de escassa circulação no Brasil; contribuir à aquisição, pelos alunos, de competências para leitura, análise e interpretação de filmes em geral; e difundir pesquisas teórico-acadêmicas sobre cinema cubano e latino-americano em geral a um público mais amplo. Durante as aulas serão exibidos trechos de filmes (podendo haver casos de exceção em que sejam exibidos na íntegra), serão abordados conteúdos teóricos pertinentes às linhas de forças que constituem o eixo de cada aula e serão discutidos aspectos estéticos das obras cinematográficas. Será feita menção a bibliografia que inclui teoria e crítica de cinema, pesquisas sobre cineastas específicos, textos dos próprios cineastas e a historiografia do cinema cubano. Serão recomendados textos para leitura fora da sala de aula, em caráter opcional. O curso dirige-se a professores de ciências humanas, estudantes, pesquisadores, cinéfilos e interessados em geral. Para professores, espera-se que possa contribuir ao amadurecimento das atividades pedagógicas, já que a aproximação a obras cinematográficas é cada vez mais frequente no contexto escolar.


Bibliografia:
BERTHIER, Nancy. Tomás Gutiérrez Alea et la revolution cubaine. Paris: Cerf-Corlet,
2005.
BESKOW, Cristina A. O documentário no Nuevo Cine Latinoamericano: olhares e
vozes de Geraldo Sarno (Brasil), Raymundo Gleyzer (Argentina) e Santiago
Álvarez (Cuba). Tese de doutorado. São Paulo, ECA/USP, 2016.
CABALLERO, Rufo. Lágrimas en la lluvia. La Habana: ICAIC/Letras Cubanas, 2008.
CHANAN, Michael. Cuban cinema. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2004.
DEL Río, Joel. La edad de las ilusiones – el cine de Fernando Pérez. La Habana:
Ediciones ICAIC, 2016.
DÖPPENSCHMITT, Elen. Políticas da voz no cinema em Memórias do
subdesenvolvimento. São Paulo: EDUC/FAPESP, 2012.
GARCÍA Borrero, Juan Antonio. Otras maneras de pensar el cine cubano. Santiago de
Cuba, editorial Oriente, 2009.
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___. Cine cubano de los sesenta: mito y realidad. Madrid: Festival de cine
iberoamericano de Huelva/Ocho y medio libros de cine, 2007.
GARCÍA Espinosa, Julio. Algo de mí. La Habana: Ediciones ICAIC, 2009.
___. Un largo camino hacia la luz. La Habana: Casa de las Américas, 2002.
GUEVARA, Alfredo. Revolución es lucidez. La Habana: Ediciones ICAIC, 1998.
___. Tiempo de fundación. Madrid: Iberautor, 2003.
GUTIÉRREZ Alea, Tomás. Dialética do espectador - seis ensaios do mais laureado
cineasta cubano. São Paulo: Summus, 1984.
IBARRA, Mirta (org). Tomás Gutiérrez Alea: volver sobre mis pasos. Madrid:
Ediciones Autor, 2007.
LABAKI, Amir. O olho da revolução: o cinema-urgente de Santiago Alvarez. São
Paulo: Iluminuras, 1994.
NÚÑEZ, Fabián Rodrigo Magioli. O que é Nuevo Cine Latinoamericano?: o cinema
moderno na América Latina segundo as revistas cinematográficas especializadas
latino-americanas. Tese de doutorado. Niterói: UFF, 2009.
OROZ, Sílvia. Gutiérrez Alea: os filmes que não filmei. Rio de Janeiro: Anima, 1985.
PARANAGUÁ, Paulo Antonio (org). Le cinéma cubain. Paris: Centre Georges
Pompidou, 1990.
PRIOSTE, Marcelo. O cinema documentário de Santiago Álvarez na construção de uma épica revolucionária. Tese de doutorado. Sâo Paulo: ECA/USP, 2014.
SCHROEDER, Paul A. Tomás Gutiérrez Alea: the dialectics of a filmmaker. New York: Routledge, 2002.
VILLAÇA, Mariana. Cinema cubano: revolução e política cultural. São Paulo: Alameda, 2010.
XAVIER, Ismail. “A personagem feminina como alegoria nacional no cinema Latino-Americano". Balalaica - Revista Brasileira de Cinema e Cultura, São Paulo, n. 1, 1997, pp.84-101.

Maria Alzuguir Gutierrez é pesquisadora e professora de cinema. Doutora em cinema e mestre em letras pela Universidade de São Paulo, atualmente desenvolve, na mesma universidade, pesquisa de pós-doutorado a respeito da incorporação das ideias de Brecht no cinema da América Latina. Publicou artigos e resenhas em revistas especializadas de diversos países, organizou e ministrou os cursos Vertentes do cinema cubano (2011) e Literatura e história no cinema latino-americano (2010), ambos no Memorial da América Latina, e coordenou a edição brasileira do FELCO (Festival Latinoamericano de la Clase Obrera).

Carga Horária:

20 horas
Tipo: Obrigatória
Vagas oferecidas: 40
 
Ministrantes: Maria Alzuguir Gutierrez


 
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