Atividade

94807 - O teatro e outros escritos do singular Qorpo-Santo (1829-1883)

Período:
Quinta 14:00 às 15:50
Quinta 16:10 às 18:00
Sexta 14:00 às 15:50
Sexta 16:00 às 18:00
 
Descrição: O curso O teatro e outros escritos do singular Qorpo-Santo (1829-1883) analisará a obra literária de um dos mais controversos escritores brasileiros do século XIX, José Joaquim de Campos Leão Qorpo-Santo. Nascido em 19 de abril de 1829, na Vila de Triunfo, à época um importante município da província do Rio Grande do Sul, terra do afamado militar Bento Gonçalves, José Joaquim de Campos Leão foi professor, vereador e delegado de polícia. A partir de 1862, o escritor foi dispensado do magistério por sofrer de “alucinações mentais” (termo usado pelo governo imperial em Relatórios dos Presidentes das Províncias Brasileiras: Império – 1830 a 1889, na seção “Professores Licenciados” em que José Joaquim era destituído de suas funções como professor). A doença mental que consta nos laudos médicos, era denominada monomania. Essa patologia, cunhada pelo alienista francês Jean-Étienne-Dominique Esquirol (1772-1840), designava uma alteração mental que não comprometia completamente a vida social do indivíduo. Após o aparecimento de sua “doença”, José Joaquim transforma-se em Qorpo-Santo, alcunha que deu a si mesmo quando passa de um homem comum a uma divindade. A partir dessa data, ele e sua esposa, Inácia Maria de Campos Leão, iniciaram uma disputa para administrar os bens da família; tal contenda duraria até a morte do escritor, em 01 de maio de 1883.
José Joaquim de Campos Qorpo-Santo produziu uma obra literária complexa, que possui particularidades que tornaram arriscado atribuir uma classificação ao seu trabalho de acordo exclusivamente com os modelos da dramaturgia do século XIX. Produzida entre 1853 e 1877, na cidade de Porto Alegre, sua obra literária tornou-se acessível graças à publicação dos textos reunidos sob o título de Ensiqlopédia ou Seis Mezes de Huma Enfermidade. Em 1877, o escritor imprimiu, em tipografia própria, os nove volumes da Ensiqlopédia. Acreditava que sua nova persona santificada, surgida após os delírios mentais de 1862, conseguiria divulgar suas ideias apenas por meio da escrita. Na ânsia de ter os pensamentos e criações expostos ao grande público, reuniu seus mais variados textos em uma sequência lógica pouco compreensível. Nos livros que formam a Ensiqlopédia mesclou textos de poesia, receita culinária, artigos políticos, laudos médicos, impressões do hospício, peças de teatro. As criações seguiam regras ortográficas inventadas pelo próprio escritor. A disposição peculiar dos textos da Ensiqlopédia suscitou críticas duras dos jornalistas gaúchos que trataram com escárnio a excentricidade dos escritos. Os conjuntos de textos teatrais, agrupados no volume IV, obtiveram por parte dos contemporâneos julgamentos hostis. Segundo os críticos da época, as comédias possuíam muitas cenas impróprias (pancadarias, assassinatos, ofensas verbais etc.) e um enredo impreciso. Os juízos estéticos dos letrados gaúchos contribuíram para a impopularidade de Qorpo-Santo enquanto escritor. Os textos teatrais de Qorpo-Santo e vários volumes da Ensiqlopédia foram redescobertos na década de 1960, período em que a crítica teatral discutia a importância da ruptura de estruturas rígidas no teatro e interessava-se por autores que não seguissem os procedimentos tradicionais na concepção do texto dramático, da encenação e da interpretação. A ousadia das comédias, lidas anteriormente como objeto disparatado, agora se encaixava nos expedientes que atendiam às expectativas de subversão das convenções dramáticas. Curiosamente, enquanto no passado a crítica contribuiu grandemente para o apagamento do teatro de Qorpo-Santo, no século XX ela contribuiu para sua consagração na cena teatral. A classificação de suas peças transitou entre juízos distintos: de textos insanos a produções modernas, marcadas ora pela “loucura” ora pela “genialidade”.
Dessa forma, o curso O teatro e outros escritos do singular Qorpo-Santo (1829-1883) propõe uma nova reflexão sobre a obra dramática e outros textos do escritor sulino, contemplando uma análise histórico-cultural das cidades de Porto Alegre e Rio de Janeiro, além de avaliar as discussões estéticas de maior relevância no período em que produziu sua obra literária. Trazendo documentos inéditos da época que ajudam a discutir determinados juízos estéticos conferidos à obra literária qorpo-santense, esse curso permitirá abranger ideias já consolidadas sobre a vida do autor e discutir, de maneira mais abrangente, o lugar ocupado por Qorpo-Santo e sua obra na historiografia teatral brasileira.



Cronograma:

Aula 1 (13/02/2020) – 14:00 às 15:50:
• Introdução do curso: Mas afinal, quem é e o que escreveu Qorpo-Santo?: dados biográficos e juízos estéticos;
Aula 2 (13/02/2020) – 16:10 às 18:00:
• Ensiqlopédia ou Seis Mezes de huma Enfermidade: leitura e apreciação dos principais trechos da extensa obra literária de Qorpo-Santo;
Aula 3 (14/02/2020) – 14:00 às 15:50:
• A cena histórica-cultural brasileira (1851-1878) nas cidades de Porto Alegre e Rio de Janeiro;
• Leitura das peças Certa Entidade em Busca de Outra e Duas Páginas em Branco e análise a partir de elementos característicos dos gêneros teatrais populares.
• Fechamento do curso: Um bufão, um louco ou gênio?: ressignificando a produção literária de Qorpo-Santo.

Referências bibliográficas:

Fontes primárias:
Correio da Manhã (Rio de Janeiro)
Correio do Povo (Porto Alegre, Rio Grande do Sul)
Diário do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro)
Diário de Notícias (Porto Alegre, Rio Grande do Sul)
Echo do Sul (Rio Grande, Rio Grande do Sul)
Estado de São Paulo (São Paulo)
Folha da Tarde (Porto Alegre, Rio Grande do Sul)
Folha de São Paulo (São Paulo)
Jornal do Brasil (Rio de Janeiro)
Jornal do Commercio (Porto Alegre, Rio Grande do Sul)
O Mercantil (Porto Alegre, Rio Grande do Sul)
O Novo Rio-Grandense (Rio Grande, Rio Grande do Sul)
Relatórios dos Presidentes das Províncias Brasileiras: Império – 1830 a 1889 (Rio Grande do Sul)
Sentinela do Sul (Porto Alegre, Rio Grande do Sul)

Obras de Qorpo-Santo:
QORPO-SANTO, José Joaquim de Campos Leão. As relações naturais e outras comédias. Fixação do texto, prefácio e notas por Guilhermino César. 2 ed. Porto Alegre: Movimento/IEL/UFRGS, 1976. (Teatro Brasileiro, 2).
___________. Miscelânea Quriosa. ESPIRITO SANTO, Denise (org.). Rio de Janeiro: Editora Casa da Palavra, 2003.
___________. Poemas. ESPIRITO SANTO, Denise (org.). Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2000.
___________. Teatro completo. Apresentação de Eudinyr Fraga. São Paulo: Iluminuras, 2001.
___________. Ensiqlopédia ou Seis Mezes de huma Enfermidade. Disponível em: www.pucrs.br/biblioteca/qorposanto. Acesso em: 18, jan., 2014.
Fortuna crítica sobre Qorpo-Santo:
AGUIAR, Flávio Wolf. Os homens precários: inovação e convenção na dramaturgia de Qorpo-Santo. Porto Alegre: A Nação/Instituto Estadual do Livro, 1975.
___________________. “Qorpo-Santo”. In: FARIA, João Roberto (Org). História do Teatro Brasileiro: das origens ao teatro profissional da primeira metade do século XX (volume I). São Paulo: Perspectiva, 2012, p. 250-253.
ASSIS BRASIL, Luiz Antonio. Cães da província. Porto Alegre: L&PM Editores, 2010, 1994. 188
CÉSAR, Guilhermino. Prefácio. In: AGUIAR, Flávio Wolf. Os homens precários: inovação e convenção na dramaturgia de Qorpo-santo. Porto Alegre: A Nação/ Instituto Estadual do Livro, 1975, p. 7-10.
CRISTALDO, Janer (org.). Qorpo Santo de Corpo Inteiro. São Paulo: eBooksBrasil (Fonte digital), 2006.
DIAS, Maria Aparecida Ramos. Qorpo-Santo à luz do trágico em Nietzsche. Trabalho de Conclusão do Curso de Especialização em Pedadogia da Arte – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2013,76 páginas.
FARIA, João Roberto. “Qorpo-Santo e as formas do cômico”. In. O teatro na estante: estudos sobre dramaturgia brasileira e estrangeira. Cotia (SP): Ateliê, 1998, p. 74-94.
FINAZZI-ÁGRO, Éttore. “Corpo mal-dito considerações à margem da obra de Qorpo-Santo”. Revista Teresa de Literatura Brasileira, São Paulo, n. 15, p. 76-87, 2015.
FISCHER, Luís Augusto. Coruja, Qorpo-Santo e Jacaré. Porto Alegre: L&PM, 2013.
FRAGA, Eudinyr. Qorpo-Santo: surrealismo ou absurdo? São Paulo: Editora Perspectiva, 1988.
________________. “Um corpo que se queria santo”. In: QORPO-SANTO, José Joaquim de Campos Leão. Teatro completo. São Paulo: Iluminuras, 2001, pp. 7-24. FROSCH, Friedrich. “Qorpo-Santo: a canonização de certo Campos Leão ou inadaptação X inépcia”. Revista Terceira Margem, Rio de Janeiro, n. 23, pp. 49-71, 2010. GONÇALVES, Maria Clara. Percorrendo o universo de devaneios, distorções e dualidades: considerações acerca da dramaturgia de Qorpo-Santo. 2011. Dissertação – Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Ciências e Letras (Campus de Assis), 2011, 132 páginas.
PIGNATARI, Décio. Contracomunicações. São Paulo: Editora Perspectiva, 1971.

Estudos sobre o Rio Grande do Sul no século XIX:
COLUSSI, Eliane Lucia. A maçonaria gaúcha no século XIX. UPF Editora: Passo Fundo, 2003.
FERREIRA, Athos Damasceno. Imprensa Caricata do Rio Grande do Sul no século XIX. Porto Alegre: Globo, 1962.
______________. Imprensa literária de Porto Alegre no século XIX. Porto Alegre: Editora da URGS, 1975. ______________. Jornais críticos e humorísticos de Porto Alegre no século XIX. Porto Alegre: Globo, 1944.
______________. Palco, salão e picadeiro em Porto Alegre no século XIX. Porto Alegre: Globo, 1956.
______________ et al. O teatro São Pedro na virada cultural do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Departamento de Assuntos Culturais da SEC, 1975.
FISCHER, Antenor. Antologia da literatura dramática do Rio Grande do Sul (século XIX). Porto Alegre : FischerPress, 2015.
GOMES, José Cândido. Chronicas de Porto Alegre. Porto Alegre: Tipografia do Mercantil, 1853.
HESSEL, Lothar. O teatro no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1999.
_______________. O Partenon Literário e sua obra: por Lothar F. Hessel e outros. Porto Alegre: FLAMA, 1976.

Carga Horária:

8 horas
Tipo: Obrigatória
Vagas oferecidas: 30
 
Ministrantes: Maria Clara Gonçalves


 
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